quinta-feira, 26 de junho de 2008

Nau de solidão...

Nas águas deste rio sou nau sem leme, estende meu peito e infla o vento a vela destra... sou casco velho sem âncora, certeza que não pesa nestes leitos, que deixa ir meu corpo solto entre brumas, tais poesias que não cegam, não se abafam mas me emudecem... rio acima, firme o capitão, incólume e olhos fitos, seu nome solidão, mesmo na fúria das águas e nenhum grito aflito, de certo estas liras sufocam o desespero... de certo céu cinza tange a terra no horizonte, lá se perdem mil olhares, bem além daqueles montes, poente meu, sepulta meu sol e jaz meu dia... nas águas destes rio, minha noite que lacina, só vento frio, silêncio, poemas e poesias... versos que suturam tais chagas, remendam madeiro que sangra esta torrente, pulsa este peito, quilha que corta águas tão sagradas... alvorada que não brilha, eis um sorriso do capitão, vendo o delta destas veias nesta nave com os panos carregados, sádico seca o rio suas águas, revela árido, chão ávido de vida minha, pedaços de mim saturam o ar, estrelas foscas nesta malha taciturna, negro manto que encobre tal tragédia... novamente silêncio prolifera, suspira a solidão, tal qual capitão que enterra seu navio, que afunda claustrofóbico sem volta neste vazio... do pó ao pó, das cinzas à cinzas, a brisa que espalha estes grãos não apaga a testemunha, um fiapo tacanho de calor, pavio que fumega sem fervor, não ilumina nem se apaga, insistente chamusca o sopro que o afaga e então nada se diz... nada fui eu que fiz, perdeu-se o corpo, senil um peito que se retalha, mas tal como fogo em palha esta fagulha que se sustenta, era tesouro protegido da tormenta que traz vida nova à minha alma...

LEKO

Nenhum comentário: